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Psicologia criminal: entre o comportamento e o rótulo

Entenda como a psicologia criminal investiga condutas, personalidade e risco, e o que pesquisas e avaliações conseguem sustentar.

TrueCrime.today Editorial8 min de leitura
Mesa de pesquisa imaginada com caderno TrueCrime.today e círculos sobrepostos. Ilustração editorial gerada por IA.

Você responde a dez perguntas numa rede social e recebe um resultado: “alto grau de psicopatia”. O formulário parece sério, usa termos de psicologia e entrega uma porcentagem. Mas de onde veio essa medida? Quem respondeu às perguntas usadas para construí-la? E por que o resultado diria alguma coisa sobre um crime? A psicologia criminal começa a ficar mais interessante quando essas perguntas entram na conversa.

TL;DR

A psicologia criminal investiga comportamentos relacionados ao crime e as condições em que eles acontecem. Personalidade, aprendizagem, relações, oportunidades e formas de avaliar risco podem fazer parte desse trabalho. Um questionário de internet não permite diagnosticar uma pessoa ou prever um delito. Para interpretar uma pesquisa, você precisa saber o que foi medido, em quem e com qual método.

O que um teste viral está medindo?

Às vezes, nem isso fica claro. Uma pergunta como “você já mentiu para conseguir alguma coisa?” pode reunir situações muito diferentes. Esconder uma surpresa e enganar alguém para obter dinheiro não têm a mesma finalidade nem o mesmo efeito. Uma lista que trata tudo como um único sinal já perdeu parte da informação antes de calcular o resultado.

Também é preciso separar o interesse pelo tema da avaliação psicológica. Nosso guia sobre o que é true crime discute como histórias reais são apresentadas ao público. Gostar de investigar essas histórias não torna um formulário de entretenimento adequado para avaliar você ou uma pessoa envolvida num caso.

Imagine um quiz inventado que atribui dois pontos a cada resposta “sim”. Dez respostas podem produzir uma nota de zero a vinte. Isso explica a conta, mas não demonstra que a conta mede psicopatia. Transformar a nota em porcentagem também não resolve: apresentar dezesseis pontos como “80%” só muda a aparência do número.

Como uma avaliação profissional faz perguntas diferentes?

No Brasil, a escolha de instrumentos precisa considerar o objetivo e as pessoas a quem a avaliação se destina. O SATEPSI, do Conselho Federal de Psicologia, explica a relação entre testes, entrevistas, observação e outras fontes de informação. A aprovação de um teste não significa que ele serve para toda pergunta ou toda população.

Há ainda uma distinção fácil de perder: aplicação informatizada e aplicação remota não são automaticamente a mesma modalidade. Um instrumento usado num computador, sob determinadas condições, não passa a ter as mesmas propriedades quando alguém coloca perguntas num site aberto. O CFP trata essa diferença nas orientações consultadas.

Esse é um exemplo brasileiro. Em Portugal, a Ordem dos Psicólogos descreve a psicologia da justiça com atividades de avaliação, perícia, intervenção e prevenção. As regras profissionais de um país não devem ser apresentadas como regras de todos os lugares onde se fala português. Aqui, usamos esses exemplos para entender o trabalho, sem orientar uma contratação ou substituir uma avaliação.

Uma associação entre respostas prevê um crime?

Não por si só. Uma pesquisa pode encontrar uma relação entre duas medidas recolhidas no mesmo momento. Essa relação ajuda a formular perguntas sobre o comportamento, mas não mostra necessariamente o que aconteceu antes, o que causou o quê ou o que acontecerá depois.

Um estudo publicado em 2025 na revista Psicologia e Direito examinou questionários respondidos por 278 homens, de 18 a 77 anos, em instituições penitenciárias de Omsk, na Rússia. A correlação entre a medida geral de sadismo cotidiano e a de agressão física foi r = 0,427. Isso descreve uma associação entre medidas naquela amostra, não uma chance de 42,7% de alguém cometer violência.

Os dados foram recolhidos numa investigação transversal: as respostas não foram acompanhadas como uma previsão prospectiva de novos crimes. O fato de um modelo estatístico usar a palavra “preditor” não muda esse desenho. O resultado também não é uma taxa brasileira, uma descrição de todas as pessoas presas ou uma avaliação de mulheres.

O que falta entre um questionário e uma previsão?

Você precisaria definir o resultado futuro, acompanhar as pessoas durante um período e verificar o desempenho da previsão. Também precisaria saber como foram tratados os erros. Uma ferramenta pode classificar pessoas como de maior risco sem que o resultado previsto aconteça; pode deixar de identificar outras que venham a apresentá-lo.

Respostas, associação e previsão são etapas com perguntas diferentes. Correlação não é probabilidade individual de cometer um crime.

A imagem separa essas perguntas. A pesquisa de Omsk permite discutir uma associação entre respostas; ela não percorre automaticamente todo o caminho até uma previsão individual. Essa diferença é útil mesmo quando o estudo tem um método bem descrito: ter um resultado real não autoriza qualquer interpretação dele.

O mesmo cuidado vale para uma história publicada. Na nossa abordagem para analisar um caso de true crime, a origem de uma afirmação é parte da leitura. “Uma pesquisa encontrou uma associação” não pode virar “a ciência provou que esta pessoa faria isso”.

Então o que a personalidade pode acrescentar a uma investigação?

Ela pode ajudar a estudar padrões de funcionamento quando há informações adequadas. Mas a pergunta precisa ser mais precisa que “qual é o tipo de pessoa que faz isso?”. Uma conduta pode ter uma finalidade imediata, depender de oportunidades e envolver escolhas organizadas. Esses elementos não desaparecem quando se fala em personalidade.

Pense numa situação fictícia em que alguém ameaça divulgar informações privadas para cobrar uma dívida. Depois, surgem várias mensagens com a mesma pressão e instruções para outras pessoas ajudarem. A repetição e a coordenação mudam o que podemos investigar. Elas não bastam, porém, para identificar um transtorno.

É possível descrever a ameaça, seu objetivo e o dano sem inventar um diagnóstico. Se houver uma avaliação, será preciso olhar a pergunta feita, as fontes usadas e o que a conclusão realmente diz. O relatório não deve servir como licença para acrescentar características que ele não examinou.

Psicopatia e sociopatia explicam a mesma coisa?

Na conversa cotidiana, os dois termos podem aparecer como sinônimos de crueldade. Na pesquisa, psicopatia envolve modelos e instrumentos com definições próprias. Um comentário dizendo “não demonstrou remorso” não equivale à avaliação desse conjunto de características.

“Sociopatia” é usado de formas variadas e pode sugerir uma explicação centrada no ambiente. A palavra, sozinha, não demonstra essa origem. Se uma reportagem opõe uma pessoa “nascida assim” a outra “criada assim”, procure a evidência para essa divisão. Uma narrativa simples sobre natureza e ambiente pode esconder o que ainda não foi estudado.

O transtorno de personalidade antissocial é uma categoria clínica com requisitos de avaliação. Há pontos de contato com características discutidas na pesquisa sobre psicopatia, mas os termos não são intercambiáveis. Nem toda mentira demonstra um transtorno; nem uma suspeita de transtorno estabelece autoria de um crime.

Narcisismo é diagnóstico ou característica?

Depende do que está sendo discutido. Buscar reconhecimento, reagir mal a uma crítica e apresentar um transtorno de personalidade não são afirmações do mesmo tamanho. Um traço pode variar entre pessoas e situações. Uma avaliação clínica precisa examinar um padrão mais amplo, sua persistência e suas consequências.

Na ameaça fictícia, dizer que alguém tentou obter dinheiro conta algo sobre a finalidade da conduta. Dizer que fez isso “por narcisismo” acrescenta uma explicação que exige evidências diferentes. Se o comportamento está documentado e o diagnóstico não está, a distinção deve aparecer no texto.

Essa precisão não diminui o dano. Pelo contrário: permite falar do que aconteceu sem fazer a gravidade depender de uma etiqueta. Uma ameaça pode ser grave mesmo que ninguém tenha identificado um transtorno de personalidade.

Por que vinte perguntas não fazem uma PCL-R?

A PCL-R tem vinte itens, mas não é um quiz para o público. A avaliação envolve critérios de pontuação e informações que vão além de respostas improvisadas. O nome do instrumento e a quantidade de itens não transferem suas propriedades para uma versão inventada nas redes.

Uma pessoa também pode responder de maneira diferente conforme o contexto, a compreensão das perguntas e o que pretende mostrar. Isso não torna todo autorrelato inútil. Significa que precisamos saber como as respostas foram obtidas e o que o método permite concluir.

No estudo de Omsk, os questionários são parte do desenho descrito pelos autores. A limitação aparece quando alguém tenta usar o resultado para outra finalidade, como diagnosticar um participante ou prever um caso brasileiro. Um método pode servir a uma pergunta e ser insuficiente para outra.

Doença mental significa maior perigo?

Não cabe transformar uma categoria ampla em retrato de quem comete crimes. Psicose e psicopatia são conceitos distintos, apesar da semelhança entre as palavras. O NIMH informa que a maioria das pessoas com esquizofrenia não é violenta; isso contraria a associação automática que certos relatos produzem.

Quando uma condição aparece num caso, ainda é necessário examinar os sintomas, o momento e a relação com os atos discutidos. Ter um diagnóstico anterior não responde sozinho a essas perguntas. Também não determina automaticamente uma conclusão sobre responsabilidade penal.

Esse último ponto depende da lei e das provas do processo em questão. Uma discussão psicológica geral não substitui o exame jurídico de um caso. A página não dá um resultado judicial a alguém por causa de um traço ou de uma doença.

Um padrão pode mudar com o tempo?

Pode haver mudanças, mas não é possível prometê-las a partir de uma descrição curta. Personalidade, situação e comportamento não são a mesma coisa. Uma pessoa pode continuar com certas características enquanto suas oportunidades, relações e formas de agir mudam.

Na história inventada das ameaças, a ausência de novas mensagens pode ter explicações diferentes. A pessoa perdeu acesso ao contato? Passou a usar intermediários? Houve uma intervenção? A resposta importa mais que anunciar que “o perfil mudou” porque uma semana foi tranquila.

Para avaliar risco, o que mudou precisa ser documentado. Um rótulo permanente não observa essas condições; uma impressão otimista também não. A pergunta útil acompanha os fatos e reconhece o que ainda não se sabe.

Como levar essas perguntas para o próximo caso?

Ao encontrar uma explicação psicológica, tente separar três afirmações: o que a pessoa fez, qual padrão foi observado e qual avaliação sustenta uma conclusão. Se uma delas depende apenas de comentários, isso precisa continuar visível. Não deixe uma fonte preencher o papel de outra.

Depois confira a população e a data de uma pesquisa. Um estudo estrangeiro com homens em instituições não descreve automaticamente você, seu país ou uma pessoa mostrada num vídeo. A última vez que conferimos as fontes desta página foi em 8 de outubro de 2026.

Você pode se interessar pelas motivações de alguém sem aceitar um diagnóstico à distância. Quando você sabe o que uma explicação consegue mostrar, fica mais fácil acompanhar a história e pedir os detalhes que um número bonito não entrega.

Para o próximo episódio

Uma afirmação sobre personalidade em um caso deixou dúvidas? Envie a frase e o endereço público onde ela aparece. Não mande laudos, prontuários, conversas privadas ou dados que identifiquem quem procura ajuda.

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